
Muita pressão. O céu estava com o pé em sua nuca, espremendo seu rosto no asfalto. Ian estava confuso e sentia uma abelha africana, picando todo o seu estômago por dentro. Conversou consigo mesmo, durante muito tempo, até tomar sua próxima atitude:
- Desta vez, Sofia, serei só metade. Sua mãe abriu-me os olhos; disse que quem não arrisca, ainda assim, corre o risco de nunca chorar por um motivo realmente legítimo. A outra metade deixarei com você, Sofia; ficará aos seus cuidados. E você vai cuidar bem, não vai, Sofia? Ai, Sofia... - Ele sofria.
Uma vibração estranha: Era o aparelho, sua mais nova aquisição, um telefone celular. A moça respondera a mensagem, mais ou menos, quinze minutos após a dele, mas o rapaz era tão ansioso, que pensou já terem se passado algumas horas. Imagine a cena: O barulho da madeira de sua escrivaninha vibrando, ele olha, vê seu Motorola, seu coração dispara, o sangue de um corpo inteiro, já todo à cima do pescoço; começa a suar frio e então! Corre em direção a ele, aperta-o entre suas mãos, tão forte, que pula feito sabonete molhado, e ele, como um malabarista, tenta agarrá-lo, espalmando-o de um lado pro outro, feito batata quente. O celular cai pela janela e ele, por puro reflexo, pula, também, pela janela. Eram dois andares.
Um enorme arranhão no braço, uma forte dor na bacia. Sujo e fedendo, Ian caiu numa grande lata de lixo orgânico. Nem teve tempo de agradecer às cascas de banana, laranja e ovos, pela cama que o amortecera; olhou logo no visor rachado do, naquele momento, tão valioso aparelho, a esperada mensagem que dizia:
“Ian, seu bobo, pode ficar tranqüilo! Sua metade eu guardei num cofre, que nem pra Deus eu digo a senha. E também pode ficar seguro, porque metade minha, eu deixei debaixo do seu travesseiro: agora é sua; cuide direitinho!”
Os vizinhos, todos, olhando através de suas janelas. Olharam pro trânsito, olharam pro posto de gasolina da esquina e então olharam pra baixo, Ian saindo da lata. Além de olhos arregalados, gritos de desespero, risadas de transeuntes e os mais diversos comentários, foram dez metros de sorriso, vinte quilos de alegria e sessenta e cinco minutos de banho quente.