
imagem: Olaf Martens.
Notas pré-texto:
“(...) o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si.”
(Notas do Subsolo – Dostoiévski; tradução do francês)
“Admito: o homem é, acima de tudo, um animal que constrói, condenado a buscar conscientemente um objetivo e exercer a arte da engenharia, ou seja, a abrir caminho para si mesmo incessantemente e eternamente, não importando aonde esse caminho o leve. Mas eis que, vez por outra, ele tem vontade de se desviar para um lado, talvez precisamente porque ele esteja condenado a abrir esse caminho, e também porque, por mais idiota que geralmente seja o homem direto, de ação, às vezes ele pensa que aquele caminho, na realidade, quase sempre leva não importa aonde, o mais importante não é para onde ele leva, e sim que ele continue a levar, afim de que a criança bem-comportada, fazendo pouco da arte da engenharia, não se entregue à ociosidade destrutiva, que, como é sabido, é a mãe de todos os vícios. O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível.”
(Notas do Subsolo – Dostoiévski; tradução do francês, cap. 9)
____________________________________Era sábado e nós estávamos sentados num banco de cimento, na orla da praia. Se houvesse uma foto daquele momento, qualquer um diria: “estava frio”, mas, na verdade, aquela foi a noite mais quente da estação. Usávamos casaco por idealismo – isso não requer nenhuma explicação. Ela não tomou seus remédios, aliás, já não os tomava havia uma semana. Foi parecido com uma experiência paranormal, mas eu juro: cinco ou seis segundos antes, eu já sabia que ela daria aquele profundo suspiro; e ela deu. Sem precisar perguntar o por que, já mirou os olhos nas maçãs do meu rosto e, com as pálpebras no meio do globo, e também com o rosto bem relaxado, foi logo soltando as palavras:
- É que eu sinto que já pensei em todos os caminhos que a vida pode tomar e todos os objetivos aos quais ela chega. Já refleti sobre tudo isso, racionalmente e sentimentalmente, mesmo antes de estar perto de fazer qualquer dessas coisas. Agora, quando chega a hora de viver qualquer vivência – e a hora disso é toda hora -, já me sinto cansada, entediada... Eu sei que é um saco, mas estou assim “com preguiça de viver”.
Quando terminou de falar, deitou no meu colo e ficou ali desfalecida, como alguém que anda dormindo sem ter sono. É sabido que, como Dostoiévski já dissera, a coisa de dar movimento à vida, para muitos consiste na finalidade do próprio movimento em si, até desprezando um pouco o objetivo final das investidas. O problema dela é que já se cansou do corredor, antes mesmo de chegar ao quarto. Sendo assim, desistiu até do quarto, com a cama macia e o ar-condicionado; dormiu no chão da sala mesmo, nem deitou no sofá. Agora vejam os senhores que lêem este texto e até mesmo o senhor, Dostoiévki, que muito respeito e daria tudo por uma leve semelhança e que, também, se estiver com algum tempo vago, deve estar com os cinco dedos nas longas barbas, em alguma dimensão não tão distante, dando uma olhada neste inconseqüente que aqui escreve e que tem como maior inspiração a própria ignorância; veja: Quando acariciei os cabelos dela, já com o corpo todo mole e influenciado, disse, apenas, algo como:
- É Verônica, entendo o que você me fala. Na verdade, sinto-me, muitas vezes, exatamente assim. Passei muito tempo pensando, planejando, almejando, idealizando e, agora, justo nesta hora – que é a vida -, não quero atravessar a rua e comer no Pigalle, não quero morar ali no Sofitel, não quero tirar a roupa e pular na água... Minha maior pretensão nessa vida, ao menos para o momento, é acariciar seus cabelos até sentirmos sono e então irmos para nossa cama, onde poderemos, sem culpa, tirar estes casacos.
De súbito os olhos dela energizaram, ela me agarrou, me deitou no banco e começou a beijar-me loucamente e, no fim das contas, nós tiramos os casacos ali mesmo. Descobrimos que nem pra tudo na vida temos preguiça, mas que esta é mesmo a mãe de todos os vícios; amém.