
imagem: Office in a Small City - Edward Hooper
Ilmo Amigo Espelho,
Estive pensando a respeito das necessidades diversas, como as fisiológicas, as psicológicas, as espirituais, as neuróticas em geral, e cheguei a algumas conclusões. Sempre que chego do trabalho, sinto a incrível necessidade de re-configurar meu dia, de modo que nunca o hoje pareça com o ontem, ou de modo que, pelo menos, não me dê a impressão de que será igual, ou por demais parecido. Isto tem se tornado uma espécie de “objetivo de vida diário”, onde buscar a diferenciação de um dia para o outro, é a grande meta, fazendo, assim, com que, sempre que eu pensar na vida, relembrando meus dias anteriores, sejam os anos, seja somente a semana passada, eu lembre de um dia de cada jeito, com sua própria história, face e personalidade, um dia de cada cor: segunda azul, terça laranja, quarta verde, e por aí vai, ainda que se repita a matiz, porém mudando, ao menos, a tonalidade. Piso em casa e começo a fazer os planos; os principais instrumentos materiais que utilizo são a carteira com os cartões de débito, crédito, refeição, locadora, livraria, cinema, e etc, bem como a agenda de telefones, com algumas possibilidades de boa companhia para aventurar-se na cidade, que é como o universo, sempre em expansão, sempre um mistério, sempre com novos planetas, estrelas, galáxias e, infelizmente, também, buracos negros. Ontem quando realizei um de meus rituais favoritos – fui à locadora, demorei cerca de 18 minutos para escolher cada filme, lendo a sinopse, o diretor, o elenco, o ano, o formato, e por aí vai; escolhi três. Em seguida fui, a pé, ao mercado, com os DVDs nas mãos, escolhi algumas long necks da minha cerveja preferida, alguns petiscos que me pareciam apetitosos para o dia, olhei o rosto das pessoas, os carrinhos, a nojeira que é a carne crua na vitrine do açougue, passei o cartão, digitei a senha, olhando pra um lado e pro outro, discretamente, para ver se não havia nenhum bem intencionado de olho nos meus dígitos, dei aquele sorrisinho para a caixa, peguei minha notinha, ensaquei o tesouro, fui andando pra casa, escutando música, olhando os carros, subi de elevador olhando meus braços no espelho, só pra ver se a academia está fazendo efeito, cheguei em casa, e dei seqüência ao ritual de consumo do, tão meticulosamente, escolhido, nos centros comerciais mais próximos -, foi então quando surgiu para mim o pensamento, de que toda aquele sentimento maravilhoso, se proporcionado tão freqüentemente, poderia cair no tédio da rotina e perder a graça, sendo isso muito arriscado, pois o prazer de degustar a comida, a bebida, o roteiro, a atuação, a direção, as pernas em cima da mesinha de centro, e a sensação de rir embriagado, de piadas feitas por Woody Allen, bem na sala da minha casa, não é o tipo de prazer dispensável. Foi então que, pensando nisto, resolvi assumir o papel de ficar entediado, muito entediado, deitado na cama do quarto, pensando em dias melhores. O problema é que não consegui fazê-lo, pois, ao meu lado, na mesa do computador, havia um livro muito do interessante, de um sujeito que, às vezes, me deixa meio admirado, chamado José Saramargo, e foi então que comecei a ler a tal da obra, o tal do Ensaio Sobre a Cegueira, e ai já era; meu plano de ficar entediado foi por água a baixo. Ter o livro do homem ao lado da cama é, de certa forma, dormir de conchinha com o cara, entende? Não pela pederastia, mas pela intimidade, é claro. Longe de estar resignado, hoje, ainda à mesa do trabalho, olhei com os olhos semi serrados para a parede branca e pensei: Ao chegar em casa, não aproveito o dia, nem que a vaca tussa, nem que meu telefone toque, com um puta de um camarada do outro lado da linha, me chamando para o bar mais legal de São Paulo. Infelizmente o telefone tocou, e era mesmo um puta camarada meu. O bar não era o mais legal de São Paulo, mas havia umas cervejas importadas no cardápio, que só não valeu mais a pena do que as risadas que demos durante o processo de degustação das mesmas, enquanto fazíamos planos, piadas, poesias, paródias, ou seja, um prazeroso papo–furado. Agora que estou aqui em casa, frente à tela deste lindo e divertido computador, escrevendo, pra você, uma meia dúzia de palavras, decidi que vou abandonar, ao menos temporariamente, esse objetivo novo, essa idéia fixa de ficar entediado. Sabe, meu amigo, são esses livros, esses filmes, essa internet, esse mercado, essa coisa latente dentro de mim, que me faz querer fazer as coisas, me levanta da cadeira e me joga na rua, e que quando não consegue fazer isso – me jogar na rua -, fica observando-me enquanto estou deitado na cama, com o semblante triste, meio caído, meio depressivo, chateado por não ter feito nada, chateado, de verdade, por estar assim: incrivelmente entediado.