
Sabe por que eu gostei de você, Ana? Sabe como eu consegui, realmente, amar você? Porque eu não faço questão de pão francês no café da manhã, nem de feijão no almoço, nem de carro na garagem. Não faço questão de TV na sala, nem de olho gordo de vizinho, nem de ancas promissoras. Pra mim já estaria bom o cheiro dos seus cabelos pela manhã, amassadinhos no travesseiro e a gente num colchonete. Um ninho de edredom e lã, bem debaixo da janela. Sabe a janela? Pra mim já estaria boa, com vista pro vizinho da frente; sem perspectiva. Aliás, nunca gostei de perspectivas. Sabe por que eu gostei de você, Ana? Porque eu nunca gostei de perspectivas: prefiro muito mais o lado de dentro; ainda que apertadinho, pequeno, não todo cheio desse glamour, que, aliás, eu também não gosto. Se for pra projetar, prefiro usar uma lupa. Sabe por que eu gostei de você, Ana? Porque eu sempre usei uma lupa. Eu via você com uma lupa, Ana; a minha lupa. As coisas pequenas, os detalhes; eles ficam todos grandes. É esse o valor do pequeno: Grande. Além do mais, essa questão é maior... Bem maior do que nossas lentes. Isso tem a ver com os Eu´s, Ana: são muito maiores do que os Eles. Os Eles deveriam entender melhor os Eu´s. Pois sabe o que aconteceria, Ana? Logo, logo, Tudo, seria Nós. E Nós, Aninha... É muito mais bonito.
Agora, Aninha, que o ninho debaixo da janela pegou fogo, que o cheirinho do shampoo é só de shampoo, sem suor, sem amor... Já tratei de fazer outros planos. Pra hoje eu almejo somente: comida leve, banho quente, livro bom e cama macia. Os sonhos, Aninha, vou continuar sonhando – os sonhos bons. Pra mim, eles sempre foram como festa americana: cada um leva alguma coisa, e assim garante a própria presença. Eu te disse: vou continuar sonhando. Mas dessa vez só entra convidado, Ana. Não adianta levar docinhos. Aliás, Aninha, eu estou fazendo dieta. Só como amor, amizade, boa intenção e essas comidas leves. Sabe... Vai que alguém resolve me olhar com uma lupa? Ah, eu vou querer estar em forma, Aninha... Aliás, já estou bem bonito.
De manhã lhe deixei um bilhete, feito uma pequena aliteração: Parado, polido, pensando na praça... Eu até lembrava de você, Ana. Eu ainda lembro. Mas sabe... Já não é a mesma coisa.
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E um recadinho: Estou escrevendo agora num blog de educadores chamado: Ser Humínimo. Quem quiser conferir o que rola, é só entrar no link. São todos professores da rede pública, com cabeças muito abertas e com muito a dizer. Meu texto de estréia, lá, chama-se: Sobre Meter Colheres.