Eram dois montes de pedra: montanhas, eu acho. Passavam os anos juntas, compartilhando o sol, a chuva, as cócegas que fazia o vento correndo por sobre suas cabeças. Presenciaram trovões longos, ninhos de pássaros, árvores nascendo e morrendo ao alcance de suas vistas. Um dia veio a água, o barulho, os estalos. Veio mais de tudo, e mais estalos. Quando notaram-se, já não estavam mais juntas. Só havia água em volta, e só se comunicavam por gritos difusos – gritos de montanha. E mais, como sempre, o tempo passou, passou, passou... E as duas seguiram chamando de visita, tudo aquilo que se aproximava, mas não era pedra.
De seis lados, cada um: o primeiro em minha mão, o segundo na sua. A viagem ainda vai durar trinta minutos e acho que é tempo o suficiente para refletir. A gente já usou a boca pra rir e pra chorar. A gente já achou que entendeu tudo, jogou a teoria à prova e provou o contrário. Os dias amargos ainda existem e a essa altura parece mais claro: a ordem das coisas deve ser mais descontínua do que linear. Meus futuros cachorros não morrerão sempre que apresentarem os sintomas do último. O Flamengo não perdeu aquele jogo porque eu estava com o chinelo errado. A Luana também tinha essa falha na sobrancelha, mas não acho que você vá me deixar esperando no metrô de Botafogo. Confiar em alguém não irá sempre resultar em perda de tempo e energia. De qualquer forma, se você olhar através da janela à sua esquerda vai ver que mais cinco minutos se passaram, e eu não realmente acho que poderiam ter sido melhores. Ainda que em vinte e cinco minutos você vá pra lá e eu pra onde. Acho também que repensei minha posição a respeito do tempo pra refletir sobre tudo isso: ele é demais. A gente vai chegar às conclusões pensadas, às relações lineares ou descontínuas, à besteira ou à beleza do que poderia vir a ser... E, no fim das contas, eles continuam com seis lados, um em minha mão, outro na sua, e a gente tem que decidir se quer ou não lançá-los. O resultado vai de dois a doze e, sinceramente, eu não me importo. Proponho puxarmos a corda, nos equilibrarmos enquanto pára, e descermos agora.
O escuro desapareceu do meio para as bordas: era eu abrindo os olhos e enxergando o teto. Já li muito Kafka para me assustar com o fato de ter me transformado enquanto dormia. Eu ainda era o mesmo, mas toda a minha juventude havia ido embora e a minha pele estava consideravelmente flácida. Preferi não levantar e esperar, para que o sonho acabasse, mas estava muito curioso a respeito da minha fisionomia enquanto idoso. Caminhei até o espelho, acendi uma luminária próxima e me lembrei de ter ouvido dizer que não é possível ver um rosto em um sonho, se o mesmo já não tiver sido visto enquanto acordado. E, por conseqüência, me lembrei da moça pela qual me apaixonei aos treze anos, dormindo, e de que quando acordei só me lembrava dos seus olhos, e da maquiagem ao redor deles. Forcei como louco, mas foi em vão: a tal mulher da minha vida ainda não havia cruzado comigo em estado consciente.
Deus sentou-se comigo em um boteco no centro da cidade e me pagou um café com leite. Disse que me dar a bebida não era nenhum milagre, mas que o fato de cercar duzentos mililitros com um vidro e trocar isso por moedas de valor imaginário já significava um grande avanço para nossa espécie. Perguntei-Lhe por que estou vivo e porque sinto vontade de não estar com tanta freqüência e ele disse que moedas de valor imaginário já eram um grande avanço para nossa espécie. Voltei à minha imagem, frente ao espelho, próximo à luminária.
Minhas barbas eram brancas com alguns poucos fios pretos. Não importava o quanto tentasse definir minha fisionomia, não conseguia ver mais do que uma silueta escura com uma barba branca. Isso me incomodava, pois queria me ver já velho, mas só o fato de saber que um dia teria espessos pelos no rosto, pagava minha caminhada até o espelho.
Dostoievski e Machado de Assis discutiam alguma coisa na confeitaria Colombo. Os interrompi para dizer que sempre achei que tinham algo em comum em suas escritas. Os dois me olharam e, por puro reflexo, pedi desculpas. Quando me lembrei de que não teria dinheiro para pagar a conta, corri à porta do estabelecimento. Por sorte, ainda tive tempo de gritar: Machado, leia O Eterno Marido!
Já de volta à cama, aos meus prováveis setenta anos, não conseguia acomodar-me sabendo que estava ao fim de minha vida, ainda dormindo só, sem ter achado quem ou o que procurava. Levantei-me, fui à varanda e me joguei do septuagésimo andar. Acordei sentado ao lado de Deus, em um jogo do Flamengo no Maracanã. Disse a Ele que eu poderia estar apaixonado, mas que a vida me dava medo. Ele disse que as moedas com valor imaginário já eram um grande avanço para nossa espécie e que era melhor pensar no resto como um bom milagre. Perguntei se havia lido Sartre, mas Ele respondeu em francês. O Flamengo ganhou de dois a zero.
Cinco horas da manhã, o despertador e eu acordados. Fui pensativo no ônibus, rumo aos meus afazeres. Na volta parei em um cinema e senti aquela velha vontade de viver por apenas duas horas e duas dimensões, cristalizado em sais de prata, enrolado em uma lata antiga, em um roteiro surrealista.
Clarice ouve o clic do isqueiro, o desatarraxar da tampa da garrafa d´água, o toque do copo na pia e corre logo à cozinha. Francisco Solidão acordou ainda antes do sol nascer e se prepara para ir à aula. Clarice lambe seus pés, late empolgada, mas Francisco mal percebe sua presença. Mochila, sanduíche, chave, celular, porta do apartamento, portão do prédio, ponto de ônibus, moedas contadas. Uma hora depois, Francisco está no centro da cidade fumando outro cigarro, quarenta minutos antes do professor chegar à sala. Sobe, senta, limpa os óculos, abre um livro e entra em estado de leitura. Pessoas começam a chegar, dão discretos “bom-dias” e Francisco responde mais com a mente do que com a boca. O primeiro presidente do Brasil foi Marechal Deodoro, o segundo Marechal Floriano, o terceiro Prudente de Morais. A marinha, na época da proclamação, ainda tinha uma tendência à monarquia. São Paulo ainda não era tão grande. O Rio tinha outra cara. O professor chega, Francisco fecha o livro, ajeita os óculos, pega papel e caneta: a Constituição está acima de todas as leis, a sanção exige validade, vigência e eficácia, a norma está em forma imperativa. Francisco ouve o som do ar-condicionado, a voz do professor, canetas arranhando papeis, bocejos, borrachas, bochichos... Pega o celular e lê três mensagens antigas, as últimas que havia recebido. Olha as horas, a data, o tempo lá fora. Lembra dos fins de semana da adolescência, quando saia com amigos para descobrir a noite. Do primeiro copo de cerveja, do primeiro cigarro, da primeira moça que conquistou com as palavras. Lembra dos pulos na catraca do ônibus para economizar a mesada, os vinhos baratos, sentado na grama da Lapa, discutindo Karl Marx - Francisco foi ler Marx há pouco tempo, e riu quando se tocou de quanta besteira já disse aos gritos entre amigos lá na grama. Começa a chamada, data da prova, “até-amanhãs”, e Francisco está no ônibus. Uma hora depois está em casa almoçando, depois estudando, depois checando e-mails. À noite pensa no futuro. Em quando for deixar de morar com a tia de favor, em quando prestar o concurso que tanto almeja, em quando tiver dinheiro para sair nos fins de semana, redescobrindo a noite, tomando vinhos caros na mesa de um restaurante, fumando charutos, discutindo inflamadamente o Adam Smith. Francisco Solidão sente um aperto no peito, uma vontade de ficar encolhido na ponta esquerda da cama. Pensa em como seria se arranjasse um emprego qualquer, se morasse em um quartinho pequeno no centro, se comesse miojo e tomasse vinho barato na grama da Lapa... Francisco olha o futuro brilhante com o olho direito, e o futuro doce com o olho esquerdo. A mente vai às pessoas que o cercam, que vez por outra o observam. Francisco se sente cansado, sozinho, perdido. Francisco dorme, acorda, acende o cigarro, toma água, olha Clarice latindo. Pega o ônibus, fuma no centro, sobe e abre o livro: Afonso Pena morreu antes de terminar o mandato, Nilo Peçanha assumiu e saiu em pouco tempo. Marechal Hermes pegou a presidência, o Brasil foi à guerra e voltou, Epitácio Pessoa foi à Europa de navio. O professor chega, a elasticidade-preço da demanda varia na relevância do produto, o consumidor racional pensa na margem... E Francisco Solidão volta para casa, almoça, estuda, checa os e-mails, e continua pensando no presente, no passado e no futuro.
Dois tapinhas com a palma do indicador no microfone: “Testando...”. Após o som agudo da microfonia, olhou por sobre o púlpito a ficha retangular com linhas azuis, cheia de anotações. Sempre faz uma para não esquecer nada na hora de falar, mas, quando vê o público à sua frente, não lembra para o que serve aquilo e diz tudo do jeito que vem à cabeça:
“Pego como exemplo, hoje, a poeira. A poeira, senhores, tem em sua natureza mais básica a qualidade de ser efêmera. Ela chega à sua casa, repousa sobre o chão ou os móveis, até que você a sopre ou espane, ou até que o vento mostre a ela outro lugar para ir. No entanto, senhores, a poeira só é efêmera nos lugares onde nós, os homens, somos fixos. À medida em que largamos nosso porto, a poeira se instala e, além de não ir embora, chama suas companheiras para mostrar que ali, onde está agora, é um lugar bom para ficar, se acomodar e descansar após uma vida tão fluxível e imprevisível – a vida de uma poeira. Vejam, senhores, que, se por algum acaso, em um outro momento distante, resolvemos voltar ao nosso porto, pensando em talvez fixarmo-nos por ali novamente, esse porto já não é mais nosso; ele é da poeira, agora grossa, densa e fixa como nós mesmos. E então, senhores, é nesse ponto em que o bom observador constata uma nova e fundamental dúvida: ficar é para nós, ou para a poeira?”
Trezentos espectadores sentados, com seus óculos redondos refletindo a expressão do palestrante que concluíra seu discurso. Ele olha para todos ali imóveis, indecifráveis, mas perceptivelmente de acordo com suas palavras. Então retira seus óculos também redondos com a mão esquerda, observando a platéia fazer o mesmo. Quando pisca os olhos, eles aplaudem em estrondoso uníssono, despertando-o abruptamente de seu sono no ônibus para o trabalho. Seu colega ao lado pergunta: “Está tudo bem, cara?”. E se recompondo, ele responde: “Estou bem, obrigado... Mas acho que tive um insight.”.
A pontinha da caneta Bic tem desses problemas: de repente falha. O policial sacudiu feito um termômetro, riscou ágil para ver se funcionava, mas de nada adiantou. “Está perdoado dessa vez. Mas se eu te pego novamente correndo, duvido você dar essa sorte!” disse, em disciplinar repreensão. Rodrigo, agora ainda mais atrasado, agradeceu ao policial, entrou no carro e dirigiu por três quarteirões à velocidade de uma charrete, por puro sentimento de gratidão com o universo que fizera há pouco falhar a ponta da caneta Bic do guarda.
Verde, amarelo e... Vermelho: tanto o semáforo quanto o rosto suado de Rodrigo ao volante, pensando na reunião que já começara há cinco minutos sem ele. Fechou os olhos por um instante, tentando lembrar um mantra que ouviu no Discovery Chanel. Lembrou porque o som era parecido com o de um palavrão muito comum e bastante relaxante nessas horas difíceis. Riu, percebendo que naquele momento o mantra parecia menos espiritual, porém bem mais funcional. Batucou com o médio e o indicador no cano da marcha, olhando os pedestres passarem com calma pela faixa. Uma senhora com um carrinho de feira cheio de laranjas, um menino quicando uma bolinha de tênis ao lado da mãe, dois trabalhadores de obra, segurando seus capacetes azuis e uma jovem de roupas leves e curvas insinuantes, de cabelo cumprido, seios durinhos e nariz arrebitado. Sentiu-se um pouco excitado. Pensou no calor, sentiu o suor empapado na testa, a gravata apertando o pescoço... Olhou outra vez para a moça que já chegava à calçada e mais uma vez a mente voltou à reunião já começada, ao sinal ainda vermelho, ao guarda recomendando menos velocidade... E então desceu do carro ali mesmo, foi atrás da moça enquanto era tempo, correu um pouco antes que virasse a esquina, agarrou-a pelo braço, virou-a para si, quando ela espantada disse: “Doutor Rodrigo?! O que é isso?!”. Desconcertado mas segurando a postura, ele respondeu: “Luciana, você não deveria estar no escritório agora?! E a reunião?!”.
Pontinha da caneta Bic rabiscando um pedacinho de papel: Luciana, já mais calma, ria para si e reforçava a data com pontos de exclamação: “É amanhã, Dr. Rodrigo! Hoje é domingo!”.
Quarto andar do edifício Petrópolis, varanda com samambaia. Há dezesseis anos que o homem calvo de camisa de botão branca desabotoada está encostado na grade, olhando pro horizonte, fumando um cigarro. Ele não sai dali para trabalhar, nem para comer, nem para dormir, nem para ter com os amigos. Permanece parado, com o olhar distante, profundamente pensativo, afogado, provavelmente, em alguma questão simples de essência complexa. As pessoas do bairro chamam o caso de “o caso da fotografia”, porque o fulano já está há tanto tempo ali imóvel, no mesmo lugar, que parece mais um retrato vivo impresso na realidade. Essa coisa do sujeito ser foto é tão real, que, como eu já disse, foram-se já dezesseis anos, imagine! E o cigarro na mão dele ainda é o mesmo.
Em homenagem ao fim, fumava um cigarro. Ele dizia que o bom em se iludir com alguém, é que justamente da ilusão a gente identifica o que dentro de nós está faltando. Daí, pra correr atrás e resolver a questão interna é um passo. Puta otimista, o cara. Ele dizia também que a única certeza na vida é a morte, e que a única certeza no amor, é o fim. Então, quando um romance acabava, ao invés de ficar triste, o sujeito já ficava logo ansioso pelo próximo, pra saber como seria, o que iria sentir, pensar e aprender. Puta pra-frente, o cara... Na época em que eu estava terminando com a Renata, encontrava com ele toda terça de manhã na padaria do Aluízio. Sempre lá no último banco do balcão: pãozinho com manteiga na chapa, cafezinho com leite no copo americano, boininha marrom enterrada na cabeça... Eu dava bom dia, ele olhava pra mim, sorria, e acenando dizia: “Bom dia é pouco! Hoje o dia vai ser ótimo!”. Amareladamente eu sorria de volta. Depois de comer, ele fumava um cigarrinho, cumprimentava o Aluízio, passava por trás de mim, dando uns tapinhas amistosos nas minhas costas, e na porta da padaria, vestia o casaquinho xadrez, dava uma espreguiçada, montava na bicicleta e ia embora assoviando uma música do Chico Buarque. E por falar em Renata, hoje completariam três meses sem vê-la, se eu não tivesse decidido parar pra tomar um café na padaria do Aluízio. Estavam lá os dois, Renata e o prafrentex, comendo pãozinho na chapa, tomando cafezinho com leite no copo americano. Rapidinho entendi tudo. Puta babaca, o cara.
É óbvio que Ricardo, professor de matemática num pequeno colégio de Caxias, no Rio de Janeiro, não se surpreendeu ao chegar a sua rua e deparar-se com um enorme elefante cor de rosa em seu quintal. O mundo e suas situações estão subjugados ao crivo da lógica e, certamente, alguém o colocou ali por algum motivo – um gracejo de mau gosto, talvez. Ignorou a presença do animal, alcançou o molho de chaves no bolso do agasalho e adentrou sua sala de estar metodicamente organizada, e bastante limpa na maior parte do tempo. Dispôs sua maleta e casaco sobre o sofá e dirigiu-se ao banheiro para um prazeroso banho quente. Tirou suas roupas e abriu o chuveiro que, ao invés de água, choveu suco de caju. Chateou-se, pois, além de não poder assear-se, o suco estava sem açúcar. Claro! – ele pensou – O brilhante sujeito mentor dessa anedota, pôs somente o pó do suco na caixa d´água, nem tendo pensado na questão do adoçamento. Ricardo secou-se com a toalha, ou com o que sobrou dela, pois ao estendê-la reparou que havia um recorte, formando a silueta de um palhaço de circo. “Mal feito!” – Julgou Ricardo, que certamente faria melhor. Caminhou até a cozinha, passou manteiga dos dois lados do pão e, ao pegar a mortadela, a mesma comentou em alto e bom som, pressentindo o doloroso corte: “Vê lá, Ricardo! Não vá me machucar! Você só pensa em você, é?!”. Ele mesmo nem ligou e cortou-a, ignorando seus gritos. “Comida é pra comer, oras!”, disse, depois de um longo arroto de satisfação. Na sala ligou a TV, e agarrou-a assim que ela tentou fugir pela janela. Tirou-a da tomada, pois é lógico que sem energia, ninguém dá conta de sair correndo. Ricardo já estava deitado quando o telefone tocou. Na linha, sua namorada em firme tom, dizia: “Ricardo, não te quero mais. Você não se abre. Não demonstra seus sentimentos, homem!”. Ao desligar, Ricardo chorou. E, em seguida, chorou novamente, mas da segunda vez por pura raiva, afinal não há sentido em sofrer por alguém. Decidido, nunca mais procurou uma namorada, e quando indagado a respeito do amor, Ricardo diz: “Prefiro mortadela.”.
Em São Paulo há um pequeno apartamento escuro, de frente para o elevado Costa e Silva, onde vive um saxofonista de descendência libanesa, mas sem laços com a cultura. O dia inteiro ele dorme, acorda às sete e pouco da noite, toma um café fraco, e fuma alguns cigarros de filtro vermelho, sentado no chão de azulejo da cozinha, olhando para os pés enferrujados da velha máquina de lavar. Normalmente, durante a semana, veste suas roupas e óculos escuros, pega o sax e vai para um dos quatro bares em que usualmente toca. Cada noite uma banda, e nada de trabalho autoral. Voltando pra casa passa na padaria, compra dois pães franceses, uns frios e manteiga, pra então ficar sentado no sofá da sua sala escura, comendo os sanduíches e bebendo cervejas de garrafa. O nome dele eu não sei, mas ele não acredita em felicidade ou satisfação, e não está muito interessado na vida. Não tem ninguém, nem deseja ter. Só está esperando, sabe-se lá o que.
Na última semana ele não saiu de casa. Estava mais pra baixo do que o comum. Não foi trabalhar e também não comeu nada. Dentro da cabeça dele moram e movimentam-se intensos e numerosos pensamentos, e, pelo seu corpo, diversas sensações ocorrem nesse processo. Esse ostracismo intensificado começou na segunda-feira, e quando já batiam as dez e meia do domingo, ele, que estava sentado ao pé do sofá, de corpo mole e cabeça baixa, olhou para frente, fitou a parede branca e descascada, como quem tem um insight.
Não deixou nada escrito, não ligou pra ninguém. Ele nem tinha um telefone. Só subiu no parapeito da janela, sentou-se e ficou observando o elevado já vazio. Passou um mendigo no tal viaduto, parou de frente e perguntou a uns cinco metros:
- Ta fazendo o que aí?!
O saxofonista olhou-o desanimado e, com muita simplicidade, pulou da janela.
Ângela, admiradora secreta do músico, freqüentadora do jazz na Rua Augusta, foi a única a se manifestar sobre o suicídio. O policial perguntou se ela sabia o motivo do acontecido. Ângela, secando as lágrimas do rosto, apenas olhou para o céu e, sem saber ao certo para quem, perguntou:
- E quando acontece isso? Não há alguma coisa errada? Se a vida fica tão ruim, a ponto de se perder o interesse em continuar, o que é que se pode fazer a respeito? Acho que ele estava no direito dele. Tirando o amor, e os desejos, o que há mais pra se fazer nessa vida? Se a pessoa desistiu do amor? E se a pessoa não tem mais desejos? E se a pessoa simplesmente ta cansada?
O policial abraçou Ângela, que chorou em seu ombro. Na semana seguinte, domingo às dez e meia, ela também pulou da sacada.
Meu nome é Igor, sobrenome Lessa, procuro ser bom e por isso aviso: este blog está sujeito às alterações de humor, provenientes das minhas neuroses. Recomendações do terapeuta.